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Feijão: o preço é importante, mas o que está por trás dele?
Primeira quinzena de setembro mostra um mercado firme e seletivo. Mas entender o preço exige olhar além da cotação
Quem acompanha o feijão sabe que preço é apenas uma parte da história.
Uma cotação pode subir porque a procura aumentou. Pode subir porque determinado padrão ficou mais difícil de encontrar. Pode subir porque a oferta diminuiu.
E, em algumas situações, pode subir porque uma região produziu menos.
Por isso, não basta olhar o número. É preciso entender o que está sustentando esse número.
É essa a leitura que faço desta primeira quinzena de setembro.
O mercado está firme, mas não de maneira uniforme
O comportamento dos últimos dias mostra diferenças importantes entre os padrões.
Os comerciais de 7 a 8 de cor continuam encontrando uma oferta mais curta e concentram parte importante da procura.
Nos padrões de 8,5 a 9,5, existe produto, mas os melhores lotes conseguem se destacar e negociar em valores superiores.
No dia 8, por exemplo, foram ofertadas 3.610 sacas na Bolsa. Os negócios efetivamente realizados ficaram bastante seletivos: duas cargas de 9,5 a R$ 335 e um lote de 8 de cor a R$ 295.
Nos dias seguintes, R$ 340 voltou a aparecer como referência para os melhores lotes.
Mas R$ 340 não é o preço de todo o mercado.
É uma referência para determinados padrões e determinadas condições.
Essa diferença é importante.
Não falta feijão. Falta, em alguns momentos, o feijão que o comprador procura
Talvez essa seja a principal leitura desta quinzena.
Quando o comprador procura um padrão específico e encontra pouca oferta, a sensação pode ser de uma procura muito maior.
Mas procura concentrada não significa, necessariamente, falta generalizada.
Hoje, o mercado está muito mais próximo de uma situação de oferta seletiva e qualidade diferenciada.
E isso também explica por que estamos vendo uma distância maior entre os preços.
O produtor está olhando o mercado
Outro ponto que merece atenção é o comportamento de quem está na origem.
O produtor não está demonstrando a mesma pressão para vender que aparece em momentos de maior necessidade de caixa ou excesso de oferta.
As vendas acontecem, mas de maneira mais cadenciada.
Isso dá ao mercado tempo para negociar.
E aqui existe uma questão que considero importante deixar clara:
Não precisamos transformar uma boa cotação em motivo de euforia.
Se um preço sobe porque o produtor conseguiu produzir bem, entregar qualidade e encontrar um comprador disposto a pagar por isso, é uma boa notícia.
Mas, se o preço sobe porque outra região sofreu uma quebra, perdeu produtividade ou teve problemas climáticos, não existe motivo para comemorar a perda de ninguém.
O que queremos é remuneração saudável para quem produz ? não preço alto a qualquer custo.
O clima entra cada vez mais na conversa
E é impossível fazer uma análise para os próximos meses sem olhar para o clima.
Os órgãos oficiais vêm apontando uma probabilidade muito elevada de um El Niño de forte intensidade neste trimestre.
Isso merece atenção porque o clima pode interferir no calendário de plantio, nas condições das lavouras, na produtividade e na qualidade.
Mas existe uma diferença importante entre risco climático e previsão de preço.
Uma coisa não determina automaticamente a outra.
O clima pode mudar a oferta. Depois, o mercado vai responder a essa oferta.
Por isso, transformar hoje uma previsão climática em uma certeza de preço para amanhã seria antecipar uma conclusão.
E não podemos olhar somente para o feijão
O consumidor não compra feijão isoladamente.
Compra arroz, farinha, pão, milho e seus derivados, óleo, café, leite, carne e tantos outros produtos.
E as condições de produção não são iguais para todas as culturas.
As estimativas mais recentes da Conab mostram justamente esse cenário: enquanto soja e milho apresentam projeções elevadas, feijão, arroz e trigo têm estimativas de produção menores em relação ao ciclo anterior. A Conab projeta cerca de 2,95 milhões de toneladas para o feijão na safra 2025/26, queda de 3,6% sobre a temporada anterior.
Isso nos lembra de uma coisa simples:
O consumidor também faz parte da formação do preço.
Uma cadeia precisa encontrar equilíbrio entre a remuneração de quem produz e aquilo que o consumidor consegue absorver.
Então, o que estamos vendo?
Um mercado firme.
Mas seletivo.
Com oferta mais curta em determinados padrões.
Com diferenciação de preço pela qualidade.
Com produtor acompanhando antes de vender.
Com comprador comprando de maneira mais pontual.
E com o clima acrescentando uma variável importante para os próximos meses.
Não é uma história simplesmente de alta.
Também não é uma história de baixa.
É uma história de entender o que está por trás do preço.
Minha leitura
A primeira quinzena de setembro termina mostrando um mercado que encontrou sustentação, principalmente nos padrões em que a oferta está mais ajustada.
R$ 340 merece atenção, mas como referência para os melhores lotes ? não como uma nova tabela geral.
O produtor tem espaço para observar e decidir.
O comprador continua presente, mas selecionando suas necessidades.
E o clima passa a fazer parte das conversas sobre a próxima safra.
Mas ainda temos muitos capítulos pela frente.
Não precisamos torcer para o preço subir. Também não precisamos torcer para cair.
Precisamos entender por quê.
Porque, no feijão, cada preço conta uma história.
E a nossa função é justamente separar o número da história que está por trás dele.
Analista: Rose Almeida
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